Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

Experimentei desagradável surpresa quando comecei a descobrir em velhos manuscritos, com relativa frequência, documentação respeitante à existência de numerosos escravos na nossa terra de Penafiel. Sofri mesmo certa impressão dolorosa... Todos sabemos dos compêndios escolares, quiçá de obras especializadas sobre a escravatura, qual era a condição aviltante desses homens em quem não se respeitava sequer a mais elementar dignidade da pessoa humana. Mas eram sempre para mim uns casos situados a muita distância no tempo e no espaço. Agora adentro das nossas terras, sobretudo em época relativamente moderna, devo dizer que nunca tinha posto a hipótese de tal suceder. Apenas havia conhecimento de umas vagas referências a esse propósito, que me pareciam mais lendárias que verídicas. Este assunto já terá sido abordado entre nós algum dia, em pormenor ou acidentalmente? Quanto a mim, desconheço isso por completo. O pressuposto de haver quem se encontre em situação idêntica à minha no passado, por ventura com vontade de saber alguma coisa sobre a matéria, dispôs-me a transmitir aqui o pouco que me foi dado coligir nesse capítulo da escravatura em terras de Penafiel. Não se usará o processo saltitante, adoptado anteriormente com os variados assuntos versados. Embora tal método tenha em mira poupar os leitores ao tédio da monotonia, haverá com isso, em certas circunstâncias, manifesto prejuízo da clareza e ordem lógica das ideias e dos factos. Ao invés, queria eu dizer, vou tentar, no caso presente, uma panorâmica sem solução de continuidade, com verdadeira sequência, apresentando por várias vezes, seguidamente, os diferentes aspectos que o tema pode oferecer, porque é impossível focá-los todos de uma só vez. No entanto, é sempre para se ficar dentro dos limites de uma exposição sintética e no âmbito das ideias gerais, já que outra coisa se não coaduna bem com a luz modesta da nossa «candeia velha». Além do antigo registo paroquial - precioso repositório de variada informação que a cultura deve à Igreja - valer-me-ei para tanto das cartas de alforria, encontradas em notas de tabeliães, e da ajuda de curiosos testamentos, em que aparecem certas alusões avulsas relativas aos escravos e suas condições de vida. E com isto aqui deixo hoje o ponto final do meu singelo arrazoado.

MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-07-18,p.06

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publicado por candeiavelha às 00:12 | link do post

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