Terça-feira, 7 de Setembro de 2010

Houve tempo em que meus olhos muitas vezes poisaram em vão no mostrador do relógio daquela torre da Misericórdia: volviam-se contristados por encontrar sempre o ponteiro a marcar a mesma hora. A atitude parada daquele relógio - no meu parecer espécie de teimosia de quem não queria associar-se à vida circunstante da cidade - causava-me certa mágoa. Então não era tão simpático, dizia eu, que ele fosse qual relógio falante a ajudar os homens na arte difícil da boa economia do tempo? Assim ajuizava até descobrir um dia que tal modo de ser era resultado do peso dos anos que tinha - cansaço da sua idade avançada! Por mero acaso, fui encontrar no L.° de Notas do tabelião António Gomes Guimarães, de Penafiel, uma certidão que me habilitou a calcular o número exacto dos seus anos. Segundo reza, no dia 2 de Set.° de 1782, o Provedor da Misericórdia P.e Dr. Manuel Caetano Moreira - e toda a Mesa da Santa Casa mandaram lavrar uma escritura de contrato com o « Mestre Belijoeyro» Manuel de Sousa, da freg.a e lugar de Valongo, pela qual este se obrigava a fazer um relógio para a «Torre de nossa Senhora da Lapa» (sic.) O ajuste da obra já tivera lugar em 11-8-1782, como consta do Livro dos Termos e Acórdãos da Santa Casa, a fls. 22. Mestre Manuel de Sousa comprometeu-se a fazer - dentro de 8 meses, a partir do referido dia 11 de Agosto - «hum Relogio de corda de oyto dias com Bodas de botam boas, exceto as duas dos pezos que seram de ferro com toda a gravidade e segurança feito com Ruquetes de asso posto e asentado na Torre //...// com seu ponteiro no mostrador». Tudo por conta e risco do relojoeiro, à excepção das cordas e pesos, que ficavam a expensas da Misericórdia. A obra foi contratada em «trinta e tres moedas de quatro mil e oyto centos cada hua que fazem o importe de cento simcoenta e oyto mil e quatro centos Reis». No acto da escritura, Manuel de Sousa recebeu por conta do seu trabalho a quantia de dezasseis moedas e meia - moedas de oiro e prata; a outra metade do importe total seria satisfeita depois de ter sido assente o relógio e ser «visto e examinado por pessoas peritas e inteligentes».

Graças à solicitude e bom gosto da Ex.ma Mesa da Santa Casa—o relógio da Misericórdia conseguiu debelar os achaques próprios da velhice: uma vez remoçado, voltou a marcar todas as horas «com seu ponteiro no mostrador». Válido ainda com perto de duzentos anos! A minha modesta homenagem à sua longevidade, extensiva ao Mestre relojoeiro de Valongo, pela competência evidenciada na execução da sua obra.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1969-07-04, p.06


publicado por candeiavelha às 00:11 | link do post

Palavras chave

todas as tags

Contacto
"Luz de Candeia Velha"

COM A COLOBORAÇÂO DO

 

 

 

blogs SAPO