Terça-feira, 07.09.10

Já que falei na origem judaica de João Correia sempre vou referir o que dele consta de memórias genealógicas, mais ou menos conhecidas, ainda que não possa abonar por inteiro a sua autenticidade. Segundo elas rezam, o rico mercador fora natural de Arrifana de Sousa. Quem o saberá? Talvez oriundo de alguma família de marranos que de Trás-os-Montes (terra abundante em judiarias, como se conhece bem da história) descesse a tomar assento no nosso burgo com o fito de encontrar aqui terreno mais propício a transacções comerciais. Fosse como fosse, a verdade é que o dito João, ao impulso do seu génio mercantil, tão peculiar da gente da sua raça, foi levado a tentar fortuna em longínquas paragens, fora do nosso reino. Atraíram-no os empórios do norte da Europa, tão afamados no tempo, e assim «passara à Inglaterra onde fora mercador». Aí enriqueceu e casou com uma inglesa ou flamenga, chamada D. Branca, que foi a sua primeira mulher. Por força de grave agitação político-religiosa viu-se obrigado a regressar a Portugal «com seus cabedais e com sua mulher D. Branca e mais duas filhas que dela tinha havido». Estabelecera-se com sua família no Porto. É de crer (que nessa época já estivesse em efervescência no país a cruzada anti-semita que foi origem de tantos dramas e teve fundas repercussões na vida privada e pública, de carácter religioso, politico e económico-social. Por sugestão do meio ambiente, algum cálculo talvez — sem excluir verdadeira convicção — resolveu o mercador abjurar o judaísmo e abraçar a Fé católica. D. Martim Correia — Deão da Sé do Porto — foi quem lhe ministrou o baptismo. A fim de memorar o facto, João começou a usar então o sobrenome «Correia» do ilustre capitular — à maneira de escudo protector contra suspeições e possíveis aleivosias de algum cristão-velho. D. Branca, sua mulher, e mais as duas filhas é que sofreram com isso profundo abalo psíquico: tresloucadas, ter-se-iam precipitado no Pego da Lada, junto ao cais da cidade, onde se finaram tragicamente. João Correia, depois de enviuvar em circunstâncias tão dramáticas para si, veio a contrair segundas núpcias com Brites Eanes de Madureira, de quem houve geração. Foi nessa altura da vida que reedificou a igreja do Espírito Santo em Arrifana de Sousa, de mãos dadas com sua mulher D. Brites. Segundo teria declarado em seu testamento, realizara esta obra em agradecimento a Deus «pello sacar do Judeismo convertendo-o a S.ta Fé Catholica». Mais acrescento por fim que tudo isto se fundamenta em escritos de genealogistas antigos e de muita nomeada: Alão de Morais, Felgueiras Gaio e Vasconcelos Cirne.

Há anos, por amável deferência do Il.mo Snr. Abílio Pacheco T. R. de Carvalho foi-me facultada a leitura dum trabalho da sua autoria em ordem a provar que João Correia fora «natural de Inglaterra». Embora muito dignas de consideração, as razões aduzidas por S. Ex.cia não me pareceram de todo convincentes.
MONAQUINO
In jornal Notícias de Penafiel, 1970-05-08, p.06


publicado por candeiavelha às 00:44 | link do post

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